TDAH e Transtornos de Aprendizagem

Para entender melhor as dificuldades escolares

Você sabe a diferença entre déficit de atenção – TDAH e dificuldade em aprendizagem? Se tem dúvidas a respeito, especialmente se sua criança ou aluno tem dificuldades em ter boas notas, esta é uma distinção importante. Ambos – TDAH e Transtornos de Aprendizagem – prejudicam o bom desempenho escolar. Mas é somente isto que eles tem em comum, são duas coisas completamente diferentes. E apesar disto, às vezes acontecem juntos. Acompanhe então estes esclarecimentos.

TDAH e Dificuldades Transtornos de Aprendizagem

Distração é diferente de dificuldade em aprender

Comorbidades TDAH – Transtornos de Aprendizagem são muito comuns

Em primeiro lugar, TDAH não é um problema de aprendizagem, embora possa prejudicá-la e muito, especialmente na escola. O TDAH é um problema que prejudica a capacidade de prestar atenção, como resultado de um déficit de autocontrole generalizado. Trata-se de uma disfunção executiva, que portanto afeta a capacidade de aprendizagem apenas indiretamente. Por outro lado, nos transtornos de aprendizagem encontra-se uma dificuldade intrínseca à aprendizagem, envolvendo normalmente a capacidade de raciocínio, compreensão e articulação das idéias.

O efeito do TDAH sobre a aprendizagem

O TDAH é um transtorno que afeta o funcionamento cognitivo, especialmente atenção concentrada, memória de curto prazo e velocidade de processamento mental. Assim, o TDAH interfere com o substrato cognitivo que torna a aprendizagem possível. Em primeiro lugar, quando a atenção se perde com facilidade, o conteúdo daquilo que deve ser aprendido não permanece em foco por tempo suficiente para que os processos mentais necessários possam acontecer. Em segundo lugar, quando a velocidade de processamento é baixa, a manipulação mental das informações torna-se mais lenta. Com isto, a pessoa não consegue acompanhar o fluxo de entrada das informações, portanto o processo mais amplo da aprendizagem também é comprometido.

Uma criança com TDAH tem capacidade em aprender normalmente, como qualquer outra criança. Assim sendo, ela não precisa de suporte diferenciado em termos de estratégias de aprendizagem. Pelo contrário; o suporte diz mais respeito a auxílio para a manutenção do foco – como ter alguém ao lado para evitar distrações, atividades melhor estruturadas, rotinas e bons hábitos de estudo, eventualmente uso de medicação para minimizar distrações, ginástica cerebral e/ou estimulação cognitiva.

Transtornos de Aprendizagem

Em contrapartida, quando há transtornos específicos de aprendizagem, a modalidade específica de conteúdo ou de via de aprendizagem acaba prejudicada. Dentre os transtornos de aprendizagem mais conhecidos estão a Dislexia e a Discalculia.

A Dislexia é um transtorno específico que afeta a leitura e produção escrita. Assim, crianças com dislexia terão maior dificuldade em aprender por meio da leitura, porém funcionarão bem caso recebam instruções orais. Ao mesmo tempo, terão dificuldade em colocar as idéias (os conteúdos aprendidos) sob a forma escrita, tendo sucesso em se expressar e responder questões oralmente. Outra situação típica da dislexia: crianças conseguem realizar cálculos matemáticos caso estes sejam apresentados como “contas montadas”. Contudo, se precisarem interpretar um problema envolvendo os mesmos cálculos e grau de dificuldade, podem não conseguir realizar.

A Discalculia é um transtorno específico que prejudica o pensamento abstrato e o raciocínio lógico-matemático. Pode aparecer como uma dificuldade em entender conceitos abstratos, como maior e menor, antes e depois, ou até mesmo o próprio conceito de quantidade, base do entendimento do que são os números.

Sobre transtornos de aprendizagem, sempre dou como exemplo o caso de um dos pacientes que cuidei. Era um jovem de 17 anos, com intensas dificuldades de aprendizagem na área de raciocínio lógico-abstrato. O pai trabalhava com bicicletas. Numa das atividades, questionei qual situação seria mais vantajosa para seu pai – vender uma bicicleta por R$ 102,00 ou por R$ 98,00. Ele respondeu, com muita segurança: R$ 98,00!! Para ele, o fato dos números 9 e 8 serem maiores que 1, 0 e 2, deu a pista para que ele preferisse 98 a 102.

Potencialização das dificuldades

A importância da diferenciação entre TDAH e transtornos de aprendizagem jamais será excessiva. De fato, vivemos atualmente um cenário onde muito se fala sobre TDAH – coisa muito positiva, diga-se de passagem. Mas também por isto, muitos pais e professores automaticamente concluem “automaticamente” que os problemas escolares de suas crianças são causados por distração. Claro que esta possibilidade existe, porém em muitos casos a criança tem outro problema que não TDAH, que acaba sendo deixado de lado ou mal diagnosticado.

A criança com transtorno de aprendizagem, em si, não tem necessariamente um déficit de atenção. Contudo, pela dificuldade de aprendizagem, boa parte do tempo ela realmente não entende o que está acontecendo ao redor – o que a professora está explicando, o que ela deveria compreender. Neste caso, os déficits de conteúdo vão se acumulando progressivamente, até o ponto em que ela se vê realmente “boiando”.

Comorbidades TDAH e Transtornos de Aprendizagem

Do mesmo modo, há igualmente probabilidade bastante elevada que o TDAH ocorra simultaneamente a um transtorno de aprendizagem. As estimativas a seguir foram encontradas por pesquisadores muito respeitados da área (Jensen, Hinshaw et al. 2001; Carroll, Maughan et al. 2005; Reich, Neuman et al. 2005; Kessler, Adler et al. 2006)

  • TDAH e Transtornos de Linguagem Oral – 8% a 30%
  • TDAH e Transtornos de Leitura – 15% a 40%
  • TDAH e Transtornos Matemáticos – 10% a 25%
  • TDAH e Transtornos de Escrita – sem resultados consistentes
  • TDAH e Transtornos de Motricidade – 40% a 60%

É preciso extremo cuidado ao se fazer um diagnóstico infantil. Em primeiro lugar, pelo impacto da área escolar ser tão imenso na vida da criança. Segundo, pelas comorbidades entre Déficit de Atenção, Hiperatividade e Transtornos de Aprendizagem serem tão frequentes. Por isto, em se tratando de sua própria criança ou de um aluno com dificuldades, não se pode correr o risco de atribuição de um rótulo diagnóstico apressado. É sempre indicado buscar para um diagnóstico diferencial da melhor qualidade. Apenas assim você poderá ajudar de fato esta criança.

Cacilda Amorim – Psicoterapeuta & Coach Comportamental
Diretora do IPDA – Instituto Paulista de Déficit de Atenção
Idealizadora dos Programas Minha SuperAÇÃO