TDAH / Déficit de Atenção – Modismo e excesso de diagnósticos?

Com o tempo, o transtorno do TDAH se tornou mais e mais conhecido e comentado. Com isto, vêm as dúvidas... Será que virou modismo, doença inventada, uma coisa que "todo mundo têm"?

O uso de medicação para TDAH tem gerado controvérsias, mais intensas conforme se fala mais e mais a este respeito. Devido ao maior conhecimento e divulgação, mais pessoas são diagnosticadas, aumentando os questionamentos. Há quem discuta se o TDAH existe ou se é uma “doença inventada”; outros, que já aceitam sua existência, divergem quanto às causas. Finalmente, coloca-se em pauta o aumento abrupto em casos diagnosticados e do consumo de psicoestimulantes.

Abuso de medicação psicoestimulante Tdah

Excesso de diagnósticos e medicamentos

Uma análise mais ampla destas questões é muito vantajosa. Por um lado, evita simplificações; por outro, facilita tomar um posicionamento mais consistente. Ainda mais importante quando se está diretamente envolvido, como para um pai que teve seu filho diagnosticado.

TDAH existe mesmo?

A polêmica sobre a existência “real” do TDAH é bem antiga, embora persistente. Em evento recente, representantes do Conselho Federal de Psicologia questionaram a existência do TDAH e Dislexia. Além disso, criticaram também a medicalização de dificuldades de aprendizagem. Quando não se aceita sequer a existência de um problema, menos ainda se aceitará tratá-lo. Que dirá usando medicação psicotrópica.

A questão da “invenção” do TDAH passa pela questão diagnóstica – como esclareço neste artigo, é um ponto central de divergências. Tecnicamente, o diagnóstico do TDAH é clínico – ou seja, não há exames específicos que possam detectá-lo. Um especialista avalia as queixas, que o paciente conta em consulta. Questiona-se como seria possível atribuir as dificuldades a um transtorno orgânico, neurobiológico, que não pode ser comprovado por exames.

Estas objeções são bastante simplistas. Pois há diversos outros transtornos mentais, entre eles a esquizofrenia, para o qual não há exames específico, que é fundamentalmente baseado em avaliação clínica. Contudo, não há quem questione a existência ou não da esquizofrenia.

Nesta linha – se o TDAH existe realmente, alguns argumentam tratar-se de uma invenção com objetivo mercadológico, por parte da indústria farmacêutica, de criar uma demanda falsa. Inventa-se um problema e dá-se a solução através do uso de medicamentos. Ou, seria uma desculpa por parte de um sistema de ensino fracassado, de colocar de transferir a responsabilidade às suas vítimas. Crianças tem dificuldades em aprender, não porque a escola é despreparada. Mas por serem portadoras de um transtorno que afeta o cérebro.

Causas X fatores de risco: Coisas bem diferentes

Caso se concorde com a existência do TDAH, passa-se então ao debate acerca de suas causas. De onde este problema se origina? O que é um transtorno neurobiológico, qual a influência da genética? E também, como nos influencia a estrutura e funcionamento do cérebro?

A este respeito, entramos em uma área de controvérsias igualmente muito antigas, cuja essência trata da determinação (causalidade) do comportamento. Em resumo, especula-se sobre o que seria mais importante: a Natureza (cérebro, genética) ou Ambiente (experiências de vida, estimulação).

Natureza versus Criação – Uma dicotomia já ultrapassada

Lá pela década de 60, defesas ardorosas de uma ou de outra posição eram muito comuns. Eventualmente, chegando ao ponto da agressão intelectual, associando as posições mais ligadas ao determinismo biológico como “direitistas” ou politicamente incorretas. Atualmente, radicalismos de qualquer lado sinalizam profunda ingenuidade ou desconhecimento intelectual e científico. Pois nenhum estudioso sério desconhece que a manifestação do substrato orgânico (inclusive a ativação / manifestação da carga genética) dependa diretamente da experiência e contato com o ambiente.

A respeito do TDAH: independente de ser definido como um transtorno neurobiológico, irá manifestar-se sim ou não, com maior ou menor intensidade, a depender de uma série de fatores, tanto de proteção quanto de risco, ligados às circunstâncias de vida, bem como outras características tanto cognitivas quanto comportamentais.

O grau de inteligência, por exemplo, é um fator de proteção. Quando o déficit de atenção acomete pessoas com inteligência mais desenvolvida, os prejuízos tendem a ser menores ou mesmo imperceptíveis. Crianças podem ter sido mal-alfabetizadas, contudo a adaptação à escola e capacidade de aprendizagem estará mais comprometida naquelas com um transtorno.

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Aumento do número de casos

A explicação mais comum para o aumento tão significativo na prescrição de medicação para TDAH, dada pela classe médica, é o maior conhecimento acerca do transtorno e, portanto, o maior número de diagnósticos. Esta afirmação, por sua vez, leva a duas outras considerações.

Dr. Google, auto-diagnósticos e opiniões de amadores

Primeiro, o maior número de diagnósticos é sim devido à maior divulgação e maior procura – o papel da Internet e do Google é inquestionável. Também é inegável o aumento dos “diagnósticos” feitos por professores, pais ou não-especialistas, bem como de auto-diagósticos em adultos. Assim, a forte identificação com os sintomas do TDAH deve ser encarada sob uma perspectiva crítica.

Qualquer análise da nossa cultura, mesmo que bastante simplificada, mostrará claramente a valorização do desempenho, foco e produtividade, exigências variadas. Desde competências multi-tarefas, simultaneamente a pressões constantes, sobrecarga de informação e excesso de estimulação. É fundamental questionar a natureza e legitimidade destas exigências e expectativas.

Crianças alfabetizadas muito cedo?

No caso de crianças, pouco se problematiza que o início da alfabetização ocorra antes dos 5 anos de idade. São inúmeros casos de escolas bilíngues para os pequenos, com agendas lotadas semelhantes aos pais executivos.

Tão pouco se leva em conta o fato das crianças estarem expostas cada vez mais cedo e de forma muito intensa à tipos de estimulação que contrasta fortemente com o que é oferecido pelas escolas. Basta comparar assistir uma aula comum, com um professor falando e escrevendo numa lousa, com tudo o que o Google, YouTube e games em geral conseguem em termos motivacionais.

No caso de adultos, é comum a expectativa de fazer sempre mais em menor tempo, enquanto se tenta desesperadamente dar conta das mensagens que não param de chegar ou navegar em vários sites simultaneamente para estar sempre por dentro de tudo.

Segundo, é provável que esta ênfase no tratamento medicamentoso esteja também diretamente relacionada a uma concepção fortemente organicista, que entenda o substrato orgânico como causa única ou ao menos principal e, por decorrência, encare o tratamento medicamentoso como central e indispensável. Some-se a esta concepção a expectativa por uma saída que seja rápida e eficaz – neste contexto, nada cai melhor do que uma pílula.

Uma concepção integrativa do TDAH

O TDAH deve ser encarado sob uma perspectiva integrativa – como um transtorno real, que tem um componente orgânico e, ao mesmo tempo, é fortemente influenciado pela experiência, estimulação, ambiente ao redor, expectativas e necessidades de desempenho. Somente assim será possível entendê-lo plenamente.

É essencial valorizar cada vez mais os processos de diagnóstico diferencial (que quer dizer, discriminar o que é TDAH e o que não é), recusando diagnósticos rápidos, achismos de amadores e também os auto-diagnósticos. Valorizar também a importância de tratamento integrado, direcionado tanto ao substrato orgânico quanto aos componentes ambientais, necessidades de treinamento e mudança de estilo de vida, bem como ajustes em valores e expectativas.

Cacilda Amorim – Psicoterapeuta e Coach Comportamental
Diretora do IPDA – Instituto Paulista de Déficit de Atenção
CRP 06/61710

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