TDAH – Déficit de Atenção e Hiperatividade

O que é este transtorno?

TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade pode causar distração, hiperatividade, agitação mental e impulsividade. Outros sintomas são esquecimentos, desorganização, adiamento crônico, dificuldades em planejamento e execução.

Cacilda Amorim
Cacilda Amorim – Psicoterapeuta & Coach Comportamental
Diretora do IPDA – Instituto Paulista de Déficit de Atenção
Idealizadora dos Programas Minha SuperAÇÃO

O que é TDAH

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH é um problema crônico que afeta as funções cerebrais. Tem início cedo na infância, podendo acompanhar a pessoa durante toda a vida. Pode se apresentar de múltiplas formas, em diferentes graus de intensidade. Segundo estimativas internacionais, entre 3% a 7% das crianças e adolescentes em idade escolar são afetadas. Destas, até 50% irão apresentar o transtorno na vida adulta. Por tais características, é importante ser bem diagnosticado e tratado o quando antes.

Nesta página, você encontrará uma sistematização de todos os tópicos centrais sobre o transtorno: como o cérebro é afetado no TDAH, quais os sintomas e causas, como ter um diagnóstico e quais as opções de tratamento. Poderá ler em sequência ou clicando os links os tópicos específicas.

1. O Cérebro no TDAH

O TDAH – Déficit de Atenção é considerado um transtorno de “base orgânica”. Em sua origem, estão alterações no funcionamento normalmente esperado de uma parte muito especial do organismo: o cérebro. E por serem estes problemas tão prejudiciais, recebem a classificação de “Transtorno”.

As alterações cerebrais características do TDAH – Déficit de Atenção correspondem a uma “lentificação” de áreas específicas, predominantemente o Lobo Pré-Frontal. Como resultado desta lentificação aparecem os sintomas mais conhecidos do transtorno. A saber, as dificuldades em prestar atenção, com memória, controle do impulso e do excesso de agitação motora. Daí originam-se os sintomas de desatenção / déficit de atenção, hiperatividade e impulsividade.

Lentificação do funcionamento cerebral

O cérebro não funciona da mesma maneira todo o tempo. Pelo contrário, ele adapta seu nível de ativação às atividades e demandas de cada momento. Por exemplo, estudo e leitura exigem maiores níveis de ativação – que o cérebro “trabalhe mais intensamente”.

Como resultado, a maior ativação acontece sempre que é preciso prestar atenção ou manter o foco. Igualmente, quando precisamos trabalhar em ambientes barulhentos e cheios de distrações. Ou então em atividades chatas, cansativas e pouco estimulantes. Para manter a atenção concentrada, o cérebro se torna mais ativo – os neurônios emitem pulsos elétricos mais vezes por segundo. Desta forma, ocorre o bloqueio das distrações e a ativação necessária, por exemplo, para a elaboração das idéias ao estudar ou resolução de um problema.

Contudo, nos casos típicos do transtorno, a característica psicofisiológica mais comum é a hipofunção / hipoativação de áreas cerebrais. Em especial, o córtex pré-frontal é afetado. Como resultado, parcelas significativas dos neurônios nestas áreas tem sua atividade lentificada – “trabalham mais devagar” que o esperado.

Além disto, a lentificação não é aleatória. Pelo contrário, ela é mais intensa justamente durante as atividades que demandam maior esforço mental. Ou seja, o cérebro fica mais lento quando precisaria trabalhar com maior intensidade. Daí aparece o déficit de atenção.

Diversas pesquisas já mostraram comparações em imagens funcionais do cérebro, entre pessoas comuns (normotípicas) e pessoas com TDAH. É importante ressaltar que a pessoa com TDAH sofre especialmente quando tenta se concentrar ou fazer um esforço mental.

Esta ativação elétrica dos neurônios, é diretamente relacionada à ação de substâncias químicas naturais do cérebro. São os neurotransmissores. Por este motivo se fala tanto em medicações que atuam no metabolismo do neurotransmissor dopamina. Igualmente, marcadores de hereditariedade são relacionados ao funcionamento dos neurotransmissores.

Atraso no amadurecimento

Crianças e adolescentes com TDAH são costumeiramente consideradas mais imaturos que as outros da mesma idade. Tal observação parecer ter sido confirmada numa pesquisa, que encontrou evidências que o cérebro amadurece em taxas diferentes no caso das crianças com o transtorno.

Segundo estes pesquisadores, as áreas que controlam os movimentos – o córtex motor amadureceria mais cedo. Tal resultado poderia explicar porque as crianças hiperativas são capazes de andar, correr, escalar, sair do berço ou até mesmo falar muito mais cedo que outras crianças. Por outro lado, áreas do córtex frontal, que permitem prestar atenção, regular o comportamento (auto-controle) e a própria motricidade amadureceriam com cerca de três anos de atraso. Como consequência, as crianças podem mostrar déficit de atenção e a agitação excessiva, que é a hiperatividade.

Importante ressaltar que, com o passar dos anos, o mesmo grau de amadurecimento cerebral foi alcançado. Tal fato parece estar relacionado com a redução da hiperatividade, que costumeiramente é observada com o passar dos anos.

Falha nos sistemas motivacionais e de controle da atenção

Há dois processos neuropsicológicos básicos envolvidos na regulação da atenção. A atenção é um processo fluido, que ao mesmo tempo sofre a influência de muitos fatores externos e internos.

O primeiro caminho de regulação da atenção é chamado BOTTOM-UP, por serem estas regiões evolucionariamente primitivas do cérebro. Por estarem estruturalmente localizadas em sua parte “de baixo”, são chamadas “bottom”. São regiões que controlam basicamente os centros do medo e do prazer, intimamente ligados aos mecanismos básicos e instintivos de manutenção da vida.

Como são regiões muito poderosas para a sobrevivência, por meio de suas conexões neuronais, elas alcançam as áreas mais superiores e evolucionariamente evoluídas, interferindo e direcionando o foco da atenção consciente.

O segundo caminho de regulação da atenção é chamado TOP-DOWN. Refere-se à capacidade das áreas mais evoluídas racionalmente controlarem o foco voluntário da atenção. Contudo, normalmente há um “conflito de interesses” entre o que é sinalizado como prioridade, originando o déficit de atenção.

Quando há TDAH, os processos de controle TOP-DOWN estão prejudicados. Justamente por isto, passa haver falhas na inibição seletiva das distrações, no fluxo dos pensamentos e da capacidade em focar naquilo que a pessoa sabe ser importante. Prevalece o controle pelo que é mais interessante, atraente, estimulante. Ou seja, está consolidado o déficit de atenção.

Por esta razão, pessoas com o déficit de atenção tem dificuldade em focar nas “coisas chatas”. Por outro lado, para elas é fácil entrar em hiperfoco quando “tem interesse”. Igualmente, sob pressão dos prazos se concentra mais facilmente. A pressão dos prazos, o medo do fracasso ativa os centros primitivos, ajudando a manter a atenção mesmo nas atividades que num momento anterior era simplesmente deixada de lado.

Portanto, a marca neurobiológica do TDAH – Déficit de Atenção (com ou sem hiperatividade) é, essencialmente, uma disfunção nas áreas de controle inibitório da atenção e dos processos motivacionais – as Funções Executivas.

Em resumo, no TDAH, as áreas que deveriam controlar os processos de atenção TOP-DOWN estão hipofuncionantes. Simultaneamente, as áreas que controlam os processos BOTTOM-UP permanecem intocadas. Como dito anteriormente, esta é a origem neuropsicológica do déficit atencional.

As implicações são profundas e esclarecedoras para as maiores contradições do TDAH: a acusação que “só se tem atenção naquilo que interessa”.

Quem sofre com TDA – Déficit de Atenção presta sim atenção, desde que ela seja capturada por alguma fonte de estimulação poderosa. Ao mesmo tempo, terá bastante dificuldade em exercer controle voluntário sobre o foco, especialmente diante de estímulos mais fortes e poderosos. E, naturalmente, os mais poderosos terão sempre vantagem…

Então, quais estímulos são mais poderosos? Aqueles mais prazerosos, que atingem as áreas mais primitivas do cérebro, ligadas a experiências de prazer ou medo. Por isto é tão difícil se manter em tarefas chatas… Para ninguém é fácil, mas no TDAH pode ser demasiado difícil… quase impossível!

Por outro lado, quando a situação é prazerosa, estimulante ou, por alguma razão, os mecanismos BOTTOM-UP são acionados. Por isto, que tem déficit de atenção tantas vezes oscila entre distração e HIPERFOCO.

Background

É POSSÍVEL SUPERAR

Distração, esquecimentos, agitação, desorganização, baixo desempenho…
não precisam ser para sempre. Encontre a ajuda que você necessita.

2. Sintomas – Tipos de TDAH

A sigla TDAH pode ser enganosa. Como significa Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, as pessoas leigas acabam concluindo que, na ausência da hiperatividade, não seria um caso de transtorno. O TDAH é um transtorno que pode se manifestar em combinações diferentes de sintomas, a depender da pessoa. As classificações mais reconhecidas definem três tipos principais, a partir de combinações dos sintomas básicos de distração – déficit de atenção, hiperatividade e impulsividade.

Sob a perspectiva clínica e não apenas classificatória, os profissionais da área sabem das variadas combinações de sintomas. Ainda mais quando há comorbidades.

O Dr. Daniel Amen, renomado neurologista americano, desenvolveu um sistema próprio de classificação, no qual descreve cinco tipos de TDAH. Estes tipos são muito similares às combinações mais frequentes do déficit de atenção e comorbidades. Contudo, mais que apenas inventar novos nomes, vale a pena ressaltar o resultado prático desta tipologia, uma vez que o Dr. Amen recomenda tratamentos variados para cada tipo.

Três tipos principais de TDAH (DSM)

A classificação mais conhecida do transtorno é baseada nos critérios do DSM, que é um manual para diagnóstico de transtornos mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), desde 2013 em sua quinta edição.

Os sintomas são agrupados em dois grandes blocos: Distração e Hiperatividade / Impulsividade, que posteriormente resultam em três tipos de combinações.

Tipo Desatento

Apresenta predominantemente estes sintomas de Desatenção / Déficit de Atenção

  • Pouca atenção a detalhes, cometer erros por descuido
  • Dificuldade de manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas
  • Não ouve quando chamam ou falam diretamente, pode parecer egoísta ou desinteressado
  • Dificuldade em seguir instruções ou fazer atividades até o final
  • Dificuldade para organizar coisas, tarefas e atividades. Se perde no tempo
  • Evitar, postergar ou recusar atividades que exijam esforço mental prolongado
  • Perder objetos, mesmo os mais importantes
  • Facilidade em se distrair, seja com qualquer estímulo externo ou com seus próprios devaneios
  • Esquecimentos, mesmo de atividades que realiza com frequência. Pode também esquecer o que estava falando, no meio da frase.

Tipo Hiperativo – Impulsivo

Apresenta predominantemente estes sintomas de Hiperatividade – Impulsividade

  • Agitação constante, como um “motor interno” que não para
  • Dificuldade em ficar tranquilo: frequentemente se remexendo, batucando, contorcendo
  • Dificuldade em ficar sentado ou parado em situações em que isto é esperado (sala de aula, reuniões, igreja)
  • Excesso de movimentação física: correr, escalar (em crianças) ou agitação interna e inquietude quando é preciso ficar parado (em adultos)
  • Dificuldade com atividades mais calmas (paradas), até mesmo brincadeiras (crianças) ou lazer (como ler ou assistir um filme)
  • Dificuldade em esperar sua vez em brincadeiras (crianças) ou filas (por exemplo em adultos)
  • Falar em excesso
  • Interromper as pessoas antes que elas terminem de falar
  • Agir de forma intrometida ou invasiva com as pessoas, por impulsividade

Além destes sintomas principais, outras características compulsivas e disruptivas podem também aparecer:

  • Tendência a compulsões e excessos (jogo, álcool, drogas, internet, sexo)
  • Baixa tolerância a frustrações
  • Temperamento explosivo
  • Dificuldade em se expressar (a fala não acompanha a velocidade do pensamento)
  • Busca constante por estimulação, sente tédio constante
  • Querer fazer tudo ao mesmo tempo
  • Mudar constantemente de planos

Tipo Misto / Combinado

Apresenta sintomas de desatenção, simultaneamente a hiperatividade e impulsividade.

3. Quais são as causas?

Apesar de todos os avanços da ciência, ainda não se sabem as causas exatas dos transtornos mentais em geral. Isto vale tanto para o TDAH – Déficit de Atenção quanto para ansiedade, depressão, bipolaridade ou esquizofrenia, por exemplo.

A visão mais atual entende o transtorno como um fenômeno neuro-comportamental. Isto significa que, por um lado, há componentes orgânicos de origem genética, que aumentam o risco para o transtorno. Por outro, a probabilidade de manifestação dos sintomas e sua intensidade, maior ou menor, dependem de fatores situacionais, externos e fortemente ligados ao estilo de vida.

Fatores genéticos / Hereditariedade

Tudo o que somos tem sua origem no código genético individual, que é a combinação do que recebemos de nossos pais. São essas informações genéticas as responsáveis por grande parte da variabilidade de nossas características físicas, como estatura física, cor dos olhos e cabelo, tendência para engordar ou ser mais esbelto. Até mesmo traços comportamentais e risco para doenças mentais tem origem genética.

No TDAH, o componente genético é um fator de risco muito importante. Há várias linhas de pesquisa mostrando que o déficit de atenção e/ou hiperatividade têm forte carga hereditária. Embora ainda não se saiba exatamente quais os mecanismos genéticos envolvidos, estudos indicam uma probabilidade acima de 50% de transmissão de pais para filhos.

De maneira similar, foram encontradas influências genéticas comuns entre déficit de atenção e dislexia; hiperatividade / impulsividade e traços desafiadores, bem como entre TDAH e autismo.

Fatores ambientais

Logo após a concepção, o feto passa a sofrer influências externas, iniciando sua história de vida. Vários fatores gestacionais (são chamados congênitos) representam riscos para o transtorno. A saber, uso de álcool, drogas em geral, fumo, exposição a substâncias tóxicas pela mãe alcançam o feto pela corrente sanguínea, com potencial para causar danos ao desenvolvimento cerebral.

Doenças maternas durante a gestação, como hipertensão e pré-eclampsia ou eventos no momento do parto, como enforcamento pelo cordão umbilical, sofrimento fetal, uso de fórceps e anóxia – falta de oxigenação, que leva a criança a nascer “roxa” são também fatores de risco. Por exemplo, crianças que nascem com baixo peso (menos de 1.500g) tem risco duas a três vezes maior de desenvolver déficit de atenção / hiperatividade. Quer dizer, o risco é maior, contudo há também muitas crianças que nasceram com baixo peso, especialmente as prematuras, que não desenvolvem o transtorno.

Cérebro, aprendizagem e neuroplasticidade

Uma das dúvidas mais perturbadoras é: se eu tenho déficit de atenção / hiperatividade, isto será passado para meus filhos? A melhor resposta é: talvez. A probabilidade da manifestação do déficit de atenção – se irá aparecer ou não, tem relação direta com as experiências pessoais e o estilo de vida. Idem para a intensidade dos sintomas, que poderão ser mais ou menos intensos.

Em paralelo à sua “base biológica” – a genética e risco de transmissão hereditária, o TDAH tem fortes componentes ligados a comportamentos e estilo de vida. Tudo em nós – desde o cérebro até a personalidade, hábitos e preferências, são resultado de uma intrincada interação entre nossa carga genética e todas as experiências pelas quais passamos, desde antes mesmo do nosso nascimento.

O cérebro, em si, somente se desenvolve em função destas interações, de toda a estimulação que recebe e das aprendizagens que delas decorrem. Podemos dizer então, sem sobra de dúvida, que o cérebro se reconstrói literalmente, incontáveis vezes, ao longo da vida. A isto se chama neuroplasticidade.

Ou seja, mesmo sabendo-se que o Déficit de Atenção é um transtorno de base orgânica, com determinantes genéticos já identificados, não significa uma relação direta de causalidade simples e linear. O ambiente e as circunstâncias de vida tem um papel importantíssimo.

Por exemplo, pessoas que tenham passado a infância numa família muito desorganizada, sem rotinas e hábitos regulares. Ou então que não tenham sido adequadamente supervisionadas quando crianças e adolescentes ao fazer as tarefas escolares. Outras podem ter o péssimo hábito fazer muitas coisas ao mesmo tempo (multi-tarefas). Todas estas pessoas provavelmente terão problemas em conseguir realizar suas atividades até o final, mantendo-se concentradas e focadas em seus objetivos.

Caso alguém com esta história de vida, ao mesmo tempo, sofra também com as fragilidades biológicas do déficit de atenção, suas dificuldades serão ainda maiores. Por outro lado, se um portador consegue criar rotinas, estará diminuindo a intensidade dos sintomas. Idem para desenvolver hábitos e mudar seus comportamentos. Eventualmente, os problemas poderão até mesmo desaparecer. Pois, não é que TDAH tenha “cura”, mas quando algo deixa de incomodar, é como se não existisse.

4. Como é feito o Diagnóstico?

O diagnóstico do TDAH – Déficit de Atenção e Hiperatividade exige bastante cuidado e experiência. Apesar de parecer simples diagnosticar – alguns imaginam que basta um teste simples, com perguntas e respostas objetivas. Nada mais distante da realidade.

Apenas com um diagnóstico preciso é possível encontrar tratamentos realmente eficazes. Principalmente, que levem em conta as necessidades tanto de curto quanto médio e longo prazo. Estes cuidados são indispensáveis quando se suspeita de TDAH. Pois há vários outros problemas e transtornos que podem mimetizar (imitar) seus sintomas.

Há ainda um aspecto que não pode ser esquecido ao fazer o diagnóstico do déficit de atenção. É a possibilidade de ocorrência de mais de um problema ao mesmo tempo. Isto é chamado de comorbidade.

As comorbidades devem ser avaliadas com muito cuidado, pois são muito frequentes especialmente em pessoas adultas. Justamente por isto, o processo diagnóstico torna-se diagnóstico ainda mais complexo. Comorbidades precisam ser contempladas nos tratamentos, para alcançar os resultados esperados. Portanto, é preciso ir bem mais a fundo que uma simples avaliação baseada em lista de sintomas. O objetivo é alcançar a uma análise extensa do caso.

Avaliação Clínica

O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico, baseado na análise dos sintomas por um especialista. A partir de sua experiência, irá concluir se o caso é realmente déficit de atenção. Se há ou não hiperatividade e impulsividade. Se não, qual poderiam ser as causas do problema do paciente, inclusive se uma ou mais simultaneamente.

A avaliação clínica é feita a partir da presença de sintomas, desde quando existem, em qual intensidade e em quais situações aparecem. A lista de sintomas do DSM é frequentemente usada, com a contagem do número de sintomas como critério, normalmente cinco-seis ou mais dentre nove, para ser considerado um diagnóstico positivo. Como esta análise precisa ser aprofundada e depende de conversas e observação, no caso de crianças é preciso a participação dos pais, professores e eventualmente outros adultos que possam trazer as informações relevantes.

Os sintomas precisam ter aparecido desde a infância. Uma vez que o TDAH é um transtorno de base orgânica, trata-se de algo presente desde o início da vida, não um problema que aparece apenas futuramente, apenas em situações específicas. Também segundo o DSM, pode-se classificar o tipo preponderante de manifestação, como Desatento, Hiperativo-Impulsivo ou Misto, bem como sua intensidade – leve, moderada ou grave.

Em casos leves, os sintomas estão presentes porém os prejuízos são pequenos, sem afetar significativamente a vida da pessoa, seja no trabalho, escola ou relacionamentos. Por outro lado, quando os sintomas são muito frequentes, muito intensos e causam muitos prejuízos, o caso é considerado grave. Níveis moderados de intensidade ficam entre estes dois.

Levar em conta a gravidade dos sintomas é um aspecto essencial, pois terá influência sobre os tratamentos a serem recomendados. Casos mais leves, especialmente em crianças, respondem bem a ajustes mais simples no estilo de vida e suporte escolar. Contudo, casos mais graves podem necessitar intervenções mais intensivas, como tratamentos multi-modais com terapias comportamentais, uso de medicação e outras ações para mudança de estilo de vida.

Testes Online

Atualmente, quando uma pessoa sente ter qualquer dificuldade ou problema, o primeiro passo é perguntar ao Google. A seguir, pesquisar artigos sobre a questão e fazer um teste online para saber se “tem ou não TDAH”. Testes online podem ajudar muito para o conhecimento do problema, bem como servir como motivação para procurar um diagnóstico mais completo.

Estes testes são muito interessantes sob a perspectiva de uma triagem inicial. Normalmente, são baseados nas listas de sintomas do principal manual de critérios para diagnóstico, o DSM. Como resultado, a pessoa terá uma indicação sobre a quantidade de sintomas relatados e seu significado.

Essencial lembrar que a quantidade de sintomas é apenas um dos fatores para o diagnóstico. Justamente por isto, não é possível concluir que sobre ter ou não TDAH (ou qualquer outro problema) apenas baseado apenas nos resultados de um teste, seja online ou até mesmo feito no consultório.

Testes Psicodiagnósticos & Neuropsicológicos

Há procedimentos específicos para avaliação do déficit de atenção. Por meio do estudo aprofundado das funções cognitivas, como atenção, memória, velocidade mental, pensamento linguístico e matemático, entre outras. Igualmente, características de personalidade, comportamento e funcionamento emocional podem ser avaliadas de maneira objetiva, usando testes específicos da psicologia e neuropsicologia. Tais testes podem ajudar muito no diagnóstico, funcionando como complementos valiosos. Duas questões precisam ser colocadas.

Em primeiro lugar, nenhum teste pode isoladamente comprovar ou excluir a presença do TDAH, especialmente do déficit de atenção. Este é um ponto essencial, pois muitas pessoas sentem-se inseguras com um diagnóstico essencialmente clínico, desejando uma “comprovação” definitiva.

Por exemplo, um teste de atenção que indique uma redução expressiva, ainda assim não é garantia que a pessoa tenha TDAH. Isto porque há muitas circunstâncias que podem levar ao rebaixamento de resultados no teste, como déficit intelectual, ansiedade, uso de drogas entre outras.

Em segundo lugar, estes testes demoram muito a serem feitos e tem custo elevado. Naturalmente, se houvesse testes complementares e quantitativos, rápidos e baratos como um teste online, todos os profissionais iriam indicá-los.

Porém, como não é o caso, os profissionais mais experientes e responsáveis tendem a solicitá-los apenas nos casos em que precisam de fato maior aprofundamento e segurança para o diagnóstico. Por exemplo, quando se suspeita de comorbidades, déficits intelectuais / de aprendizagem ou quando tratamentos anteriores não trouxeram os resultados esperados.

Exames médicos / Exames de imagem

Exames médicos como eletroencefalograma, ressonância magnética ou tomografia não servem para diagnosticar TDAH. Então, perguntam as pessoas, por que são solicitados?

Caso seja necessário excluir outras doenças físicas que possam causar sintomas similares ao déficit de atenção. Por exemplo, certos tipos de epilepsia, diagnosticadas pelo eletroencefalograma, podem causar lapsos de ausência de consciência, vistos externamente como “desligamentos”. Portanto, um quadro de ausências pode ser mal interpretado como distrações e TDAH.

Com relação a exames de imagem, há sim vários estudos que consistentemente mostram a relação entre certos padrões de funcionamento cerebral e o TDAH. No caso destes exames de imagem, o problema com seu uso no diagnóstico é o fato de ainda não estarem disponíveis para uso clínico.

Normalmente, são feitos apenas com os participantes em pesquisas científicas sobre o déficit de atenção, dentro de universidades. Utilizam máquinas de alta tecnologia, não disponíveis nos laboratórios de exames ou hospitais onde o público em geral faz seus exames. Contudo, as perspectivas são fortemente indicativas que em alguns anos tais tecnologias estarão mais seguras, mais baratas e disponíveis para complementar e dar mais segurança ao diagnóstico.

5. Comorbidades

Comorbidade significa a presença de mais de um transtorno ao mesmo tempo. Em se tratando de quadros de TDAH, as comorbidades são muito comuns. Isto acaba tornando mais complexos tanto o diagnóstico quanto os tratamentos.

Justamente por isto, a avaliação clínica não pode se limitar à análise dos sintomas associados ao transtorno. Essencial investigar também todos os problemas que causam queixas de desatenção / distração, agitação, alterações de humor, esquecimentos, problemas com execução e desempenho.

Na infância, as comorbidades mais comuns com déficit de atenção são transtornos de aprendizagem, como dislexia ou discalculia, bem como transtorno opositivo-desafiador. Em adultos, comorbidades envolvendo ansiedade, depressão, stress crônico, transtorno-obsessivo compulsivo, bipolaridade e abuso de drogas precisam ser bem avaliadas. Pois como há sintomas comuns, pode-se chegar a um diagnóstico incorreto ou então deixar de enxergar todos os aspectos presentes.

Necessário mencionar também que grande parte dos tratamentos mal sucedidos e com baixa adesão deve-se à não-identificação correta de comorbidades.

6. TDAH e Inteligência

Pessoas com TDAH tem grandes conflitos sobre inteligência. Por um lado, sentem que são muito criativas, até em grau maior que outros em geral. Pessoas com potencial elevado e capacidade para grandes realizações. Por outro lado, tem dúvidas sobre sua real capacidade, uma “farsa”. Eventualmente, podem até se achar “burras”, pelos erros tolos por distração e por não conseguirem fazer tudo aquilo que, racionalmente, sabem que conseguiriam alcançar.

O déficit de atenção, em si, não tem nada a ver com inteligência formal. Não é sinônimo de dificuldade de aprendizagem nem de pouca capacidade, em nenhuma área. Também não indica que a pessoa tenha QI superior ou inferior.

Duas coisas, entretanto, são completamente verdadeiras. Em primeiro lugar, pessoas com TDAH tem realmente maior dificuldade com execução, independente de suas capacidades. Neste caso, a comparação entre o que sentem poder realizar e o que conseguem de fato é muito discrepante, levando a duvidar da própria inteligência ou inclusive do caráter, quando se acham “preguiçosas”.

Em segundo lugar, é também fato que as pessoas com TDAH tem alguns processos mentais típicos, como “pensar fora da caixa”. Por isto, conseguem ser mais criativas e alcançar destaque em determinados contextos, no qual suas forças valem mais que as fragilidades.

Por tudo isto, é extremamente importante o correto diagnóstico e tratamento. Pois o impacto sobre o desempenho e não alcançar os objetivos pode ser a consequência indesejada, que pode frustrar e até destruir a vida de pessoas tão talentosas.

7. Tratamentos com Medicação

A abordagem mais tradicionalista do tratamento do déficit de atenção defendia que a primeira linha de ação deveria ser medicamentosa. Quem pensa assim, acredita que usar remédios é o caminho principal; tudo o mais é visto como acessório. Embora esta visão simplista e antiquada já tenha sido em grande parte superada, ainda hoje permanece em alguns profissionais (infelizmente, em sua maioria médicos psiquiatras). Há quem continue insistindo que a primeira linha de tratamento para TDAH é usar medicação psicoestimulante.

A compreensão que o TDAH somente pode ser tratado com sucesso por meio de uma abordagem multidisciplinar foi ficando cada vez mais clara com o passar do tempo. Foi assim, passo a passo, que os especialistas foram entendendo que a disfunção orgânica, a ser tratada quimicamente é apenas uma parte do problema.

Atualmente, os melhores especialistas já têm claro que tratamentos exclusivamente medicamentosos são insuficientes chegar aos resultados esperados. Seja em crianças ou em adultos, os melhores tratamentos são integrativos, multi-dimensionais e capazes de resultados sustentados no longo prazo.

Medicamentos mais comuns

Psicoestimulantes são os medicamentos mais comuns para TDAH. Sua ação se dá sobre potencializando o metabolismo do neurotransmissor dopamina. Já que são serem drogas extremamente controladas, somente podem ser compradas com receita médica especial. Pois são medicações “tarja-preta”, o que significa terem efeitos sobre o sistema nervoso central, com potencial para abuso e dependência.

No Brasil, estão disponíveis:

  • Ritalina (Metilfenidato)
  • Concerta (Metilfenidato)
  • Venvanse (Lisdexanfetamina)

Como resultado do uso, há redução do déficit de atenção: melhora na capacidade de foco, sustentação do esforço e inibição das distrações. A pessoa consegue se manter na atividade, sem dispersar tanto. Outros efeitos positivos são observados na redução da hiperatividade e impulsividade. Remédios também podem ajudar a sair da estagnção, a iniciar as atividades.

Tais medicamentos podem ser encontrados em duas formas de liberação da droga: ação rápida, na qual os efeitos aparecem em menos de 15 minutos e de duração máxima de três-quatro horas. Também existe a formulação LA – Longo Alcance. Nela, a droga é liberada em dois momentos principais ao longo do dia, o que permite uma cobertura entre 8 e 12 horas após a ingestão.

Ritalina é a droga mais antiga e melhor conhecida, a primeira a ter sido usada no Brasil. Inicialmente, havia apenas na formulação de 10mg, de liberação imediata. Posteriormente, apareceu o Concerta LA, seguido pela Ritalina LA de 20mg e 40mg.

Desde 2012 o Venvanse foi liberado. Trata-se de uma droga bem mais potente, feita por um componente derivado das anfetaminas. Devido aos seus efeitos mais fortes, tem sido cada vez mais usado. Também é a droga que existe na maior dosagem, chegando a 70mg por cápsula.

Efeitos colaterais e riscos

Há efeitos colaterais importantes, que é preciso saber antes do uso de psicoestimulantes. Os mais comuns são:

  • Falta de apetite e perda de peso
  • Taquicardia
  • Aumento da pressão arterial
  • Náuseas e/ou dores abdominais
  • Irritabilidade e variações de humor
  • Insônia
  • Tonturas
  • Crise de pânico
  • Surto psicótico

Por causa dos efeitos colaterais serem potencialmente nocivos, é preciso seguir estritamente os conselhos médicos. Jamais fazer uso de psicoestimulantes por conta própria, tão pouco interromper ou alterar as dosagens sem ordem médica.

Outros medicamentos

Algumas outras substâncias também podem ser prescritas para TDAH, entre elas antidepressivos como Imipramina, Nortiptilina e Bupropiona; Clonidina (anti-hipertensivo) e até mesmo Modafinil, usado para suprimir o sono.

O critério para escolha da medicação é responsabilidade exclusiva do médico responsável. Caso tenha dúvidas, inclusive se tal ou qual medicação é o melhor para seu caso, é indispensável a comunicação clara. Do contrário, não conseguirá a confiança necessária para adesão ao tratamento.

8. Tratamentos Sem Medicação

A boa notícia no tratamento do TDAH, déficit de atenção e hiperatividade são as múltiplas abordagens de tratamento não medicamentoso, que podem ser usadas em diversas combinações. Com isto, é possível atender qualquer necessidade específica, incluindo psicoterapia, coaching, meditação, nutrição, ginástica cerebral e biofeedback, entre outras, trazendo resultados positivos para o déficit de atenção, hiperatividade, impulsividade e sintomas associados.

Terapias e Coaching

O TDAH tem impacto sobre o cérebro e também sobre os comportamentos. Não se trata apenas de déficit de atenção, a ser tratado com medicação. Para melhorar a desorganização, adiamentos crônicos, falta de planejamento, oscilações emocionais, dificuldades em relacionamentos e baixa auto-estima, pode ser necessário tratamento psicoterapêutico.

A Psicoterapia Comportamental-Cognitiva (conhecida como TCC) é a linha de tratamento com resultados mais expressivos para o TDAH. Tanto para crianças quanto TDAH Adulto, é focada em reduzir comportamentos-problema, ao mesmo tempo em que desenvolve novas competências.

O Coaching Comportamental é uma excelente alternativa e complemento ao tratamento do TDAH em adultos. É baseado num tipo de treinamento bem diretivo e focado. Trabalha-se em conjunto para identificar, aplicar e aprimorar estratégias necessárias para se alcançar os objetivos e minimizar o déficit de atenção. Assim, por estas características, é ideal para adultos com foco em estudos ou vida profissional.

Treinamentos para o cérebro

Não apenas medicação é eficaz em melhorar o funcionamento cerebral no TDAH. Da mesma forma como se faz academia para manter o corpo em forma, é possível treinar o cérebro com exercícios específicos de “ginástica cerebral”, muito eficazes para o déficit de atenção e melhora da sustentação do foco.

Há opções para todos os gostos e bolsos. Desde abordagens mais minimalistas, como memorizar a lista de compras do mercado, fazer palavras cruzadas para maior fluência linguística ou jogos como xadrez para estratégia e visão de longo prazo. Em contrapartida, há sites que oferecem planos mensais de acesso para games sofisticados, que treinam diretamente memória, atenção e outras funções cognitivas.

Outra maneira muito eficaz de potencializar as funções cerebrais é usar estimulação rítmica, seja auditiva ou visual. Trata-se do Brain Entrainment – Estimulação Cerebral, que tem seu fundamento numa característica única do funcionamento cerebral, chamada de FFR – Frequency Following Response. Pois quando o cérebro sincroniza seus ritmos de pulsos elétricos de acordo com os estímulos escolhidos, os sintomas do TDAH podem ser controlados.

Mudanças no estilo de vida

Sim, o TDAH tem origem genética. Mas é também é, até certo ponto, influenciado pelo ambiente. Não é possível mudar a genética. Contudo, é sim possível mudar os hábitos alimentares, a dieta, o condicionamento físico e mental, a qualidade do sono. Todas estas coisas podem ter um efeito bem real e positivo sobre os sintomas. Quer seja déficit de atenção mas também hiperatividade e impulsividade.

Justamente por esse motivo a Psico-Educação sobre o transtorno é tão importante. Envolve conseguir informações substanciadas sobre o problema em questão. Saber do que se trata, o que se pode fazer. Como fazer. Tudo isto fortalece a pessoa, ajudando o enfrentamento, a mudanças e os ajustes necessários.

A Psico-educação pode começar inclusive antes de um diagnóstico formal. Mas é depois dele, na fase de tratamentos e ajustes que ela se torna essencial. Entender o que acontece, ajuda a vencer idéias errôneas e preconceitos. Igualmente, a melhorar a autoestima e dar motivação para a mudança. Para alcançar a etapa essencial da superação das dificuldades, que é construir uma nova forma de viver. Com mais saúde e qualidade.

9. Tem cura? Existe prevenção?

Como o TDAH é um transtorno que tem sua base em alterações crônicas de funcionamento do cérebro, não se pode falar em cura nem em prevenção.

Contudo, é totalmente possível minimizar os fatores de risco, especialmente aqueles de impacto congênito e ambiental. Gestantes devem evitar qualquer situação que represente risco para o feto, em termos de contato com substâncias tóxicas. Também seguir estritamente os procedimentos de cuidados pré-natais, para minimizar o impacto de qualquer intercorrência ou problema de saúde.

Como se sabe, metais pesados tem efeito tóxico e nocivo sobre o cérebro, crianças devem ser protegidas destes riscos. Desde corantes em alimentos ou brinquedos, até uso de massinhas e lápis de cor. Especialmente o chumbo, metal muito tóxico e frequentemente usado em tintas e corantes. Portanto, sempre procure produtos com certificação de controle ambiental, evitando toxinas, defensivos agrícolas e resíduos industriais.

Igualmente, os sintomas são significativamente reduzidos com mudanças simples em hábitos e estilos de vida. Melhorar a alimentação, praticar exercícios físicos e atividades que potencializam o funcionamento cerebral, como cálculos mentais ou meditação, são muito importantes. Ainda mais essencial é reduzir as distrações, eliminando excessos em tecnologias, redes sociais e todos os tipos de “ladrões de foco”.

Para algumas crianças, controle de alergias inclusive alimentares leva a melhora dos sintomas de agitação / hiperatividade. Ainda não se tem grandes evidências sobre a relação entre alergias e TDAH, contudo vale a pena consultar um alergologista caso o filho seja hiperativo.

Neste sentido, o cérebro pode ser transformado, tendo seu funcionamento otimizado. Minimizando o déficit de atenção, ajudando a focar. Por esta razão é tão importante buscar tratamentos que sejam integrativos e sustentados, buscando sempre mudanças de longo prazo.

Background

É POSSÍVEL SUPERAR

Distração, esquecimentos, agitação, desorganização, baixo desempenho…
não precisam ser para sempre. Encontre a ajuda que você necessita.