TDAH tem cura?

Como tratar TDAH de maneira sustentada

TDAH tem cura? É para sempre? Esta é uma das perguntas mais frequentes que meus pacientes trazem ao consultório. Devido a uma vida de tantas dificuldades, o que se quer mesmo é uma solução permanente. Mas, hoje em dia ninguém mais suspeita de algo e fica “parado”. A primeira coisa a fazer é… pesquisar no Google! Só que… são muitas pessoas dizendo que “não tem cura”. E agora?

TDAH tem cura?
TDAH não é doença, então não pode ter “cura”

Inquestionável. Sim, causa desconforto a idéia de déficit que seja irreversível. Ao conhecer sobre TDAH, a primeira reação costuma ser de entusiasmo, alívio por ter encontrado respostas. Enfim sei qual meu problema!

Entretanto, logo em seguida… bate uma angústia diante de tudo o que se descobre não saber (ainda). Diante do fato que, talvez, seja um problema que se vai carregar para o resto da vida.

Grande parte deste mal-estar vem da imensa divulgação de uma das formas de tratamento do TDAH, que é uso de medicação psicoestimulante. Como se fosse o único tratamento existente. Muitos até afirmam, de maneira trivial, que usar medicação psicotrópica, os famosos “tarja preta”, é completamente normal. Não importa que seja “para sempre”.

É “normal” tomar remédio psiquiátrico “para sempre”?

Basta checar declarações em sites da internet, feitas inclusive por profissionais conhecidos, até mesmo pesquisadores respeitados. Extremamente comuns são as comparações, do meu ponto de vista totalmente desproporcionais, entre tomar remédios para diabetes “para o resto da vida” e usar tarja preta para TDAH. Como se fosse algo totalmente “normal”.

Eu mesma refuto esta idéia – não vejo o TDAH, nem de longe, como algo parecido com o diabetes. Durante este artigo, vou compartilhar com você minha concepção sobre este tema. Falarei sobre os conceitos de doença, cura e manejo de sintomas. Tratarei da relação entre os variados tipos de tratamentos, especialmente medicação e terapias não medicamentosas. Já que provavelmente você estará interessado, falarei ao final sobre as orientações que dou aos meus próprios pacientes, sobre as necessidades de manter os tratamentos “para sempre”.

Com base nos meus próprios pacientes, ninguém aceita tranquilamente “não ter cura”. Nem acha “tudo bem” da suposta necessidade de seguir usando remédios psiquiátricos por prazo indeterminado. A recusa é ainda maior por parte dos pais, que com toda a razão encaram o presente sem deixar de lado suas perspectivas futuras.

TDAH tem cura ou não? O que fazer então?

O TDAH não é considerado uma doença, por este motivo ninguém pode dizer “TDAH tem cura”. Bastante atenção para este ponto. Pois você irá encontrar este conceito – que “TDAH é uma doença” em vários sites da internet. Também encontrará outros, que irão prometer “a cura”.

Somente doenças podem ter cura. Uma doença é um estado do corpo, causado por uma situação ou agente específico, que pode ser eliminado para que se retorne ao estado inicial. No caso do TDAH, é diferente. Essencialmente, trata-se de uma SÍNDROME – um conjunto de sintomas, com causas múltiplas, incluindo fatores neurobiológicos, pessoais e ambientais.

Mas, independente dos rótulos, de ser ou não doença, o que interessa aos portadores ou seus pais é: como irei lidar com os sintomas, como irei tratar. Igualmente, perguntam: por quanto tempo o tratamento será necessário. Acima de tudo, se precisarei usar drogas psicotrópicas por longos períodos.

TDAH não tem cura, pois é algo que faz parte da pessoa e que acompanhará por toda a vida. Contudo, não quer dizer que ela terá prejuízos permanentes. Mesmo não tendo cura, o TDAH é uma síndrome que pode ser bem manejada. Neste sentido, escolhendo tratamentos que tragam efeitos de longo prazo, é possível ter excelente qualidade de vida. Porventura, até mesmo conseguindo manter uma dosagem mínima de medicação ou até mesmo dispensando seu uso.

Quer entender a relação entre tipo de tratamento e a necessidade de “tratar para sempre”? Então acompanhe esta explicação sobre TDAH e cérebro, os conceito de neuroplasticidade, fatores de risco e de proteção.

Cérebro, neuroplasticidade, fatores de risco e de proteção

O TDAH tem relação direta com o funcionamento de uma parte especial do corpo – o cérebro. Diversos estudos já encontraram correlações entre alterações no funcionamento de algumas áreas do cérebro. Entre elas, a lentificação dos lobos pré-frontais e presença de sintomas de TDAH. Igualmente, já se tem segurança sobre ser este um transtorno que corre em famílias, fato indicativo de hereditariedade. Por este motivo não se pode falar “Tdah tem cura”. É algo que veio ao mundo com a pessoa.

Apesar de tais achados, todos relacionados ao substrato orgânico cerebral e à mecanismos de hereditariedade, não se pode dizer que o TDAH tenha uma causa única. Sequer, que seja exclusivamente limitada ao funcionamento cerebral ou à hereditariedade.

Durante toda a vida, nosso cérebro vai se construindo e reconstruindo constantemente. A isto se chama neuroplasticidade. Em função das experiências, das aprendizagens, do “uso” que se faz dele, o cérebro se transforma. Justamente por isto é indispensável alcançar uma concepção integrativa do TDAH.

O componente biológico, hereditário, do TDAH entra nesta equação como um fator de risco, que pode levar ao aparecimento ou piora dos sintomas. Ao mesmo tempo, há fatores de proteção, tanto pessoais quanto situacionais e ambientais.

Como um exemplo, imagine uma criança que tenha forte hereditariedade para TDAH (fator de risco), que ao mesmo tempo seja dotada de inteligência superior (um fator pessoal). Ainda mais, que viva numa família super-estruturada. Este é um bom exemplo em que os prejuízos, mesmo quando existam, poderão ser minimizados pelos fatores de proteção. Quando há fatores que possam compensar a intensidade dos sintomas, estes tendem a se apresentar de maneira mais leve.

Alguns tipos de tratamento são “para sempre” – por que optar por eles?

O tipo de tratamento que se escolhe para o manejo do TDAH é determinante quanto ao tempo que será necessário mantê-lo. Tratamentos voltados exclusivamente para o controle químico dos sintomas – conseguido pelo uso de medicação, de fato não ter perspectivas de ganhos de longo prazo. Ou seja, neste aspecto os médicos estão certos. Quem faz tratamento apenas com uso de remédios, provavelmente terá de mantê-los indefinidamente.

Quando se usa medicação, seu efeito é provisório, permanecendo apenas pelo tempo que a substância estiver no organismo. Tal fato é bem conhecido. No caso da Ritalina 10mg, dura em torno de 4 horas. Prescrições de longa duração podem durar entre 6 e 12 horas no máximo. Portanto, quando o efeito do remédio acaba, todos os sintomas retornam.

Neste cenário, não há expectativas que se possa deixar o medicamento. Justamente por isto, por esta razão, pessoas tem objeções em usar remédios. Porque há o desejo de libertar-se, a si ou a seus filhos, de um tratamento com droga psicotrópica sem prazo para terminar.

Alcançando melhores resultados combinando tratamentos

A respeito dos psicoestimulantes, vale a pena abrir a cabeça para o fato deles poderem, sim, trazer ganhos importantes. São aliados importantes ao compor um conjunto de ações de tratamento. Apenas deve-se ter em mente o objetivo maior de intervenção mínima no longo prazo.

Quer dizer, é possível usufruir dos benefícios de curto prazo que remédios psicoestimulantes podem trazer (sua taxa de respostas positivas fica em torno de 60-70% dos casos), ao mesmo tempo que se trabalha em paralelo para conseguir os efeitos duradouros, de longo prazo.

Neste ponto, entra em cena a aprendizagem – recondicionamento cerebral e comportamental – ao lado das mudanças estruturais e do ambiente de convivência. De acordo com pesquisadores e especialistas americanos, que já acumularam grande conhecimento nesta área: Pills don´t teach skills – Pílulas não ensinam habilidades. Sobretudo, quando as habilidades florescem, mingua a preocupação com TDAH tem cura ou não.

Até o momento, não podemos interferir em larga escala sobre os fatores genéticos ou congênitos. Eventualmente, chegaremos algum dia ao ponto em que a engenharia genética nos permita tal conquista.

Até lá, nesta dimensão orgânica, não poderemos realmente falar em “cura”. Apesar disto, o trabalho direcionado a maximizar os fatores de proteção e seu potencial de compensação dos déficits estão, sim, ao nosso alcance. E mais, ganhos em termos de aprendizagem não se perdem.

A importância da aprendizagem

A aprendizagem de estratégias compensatórias é essencial para a superação de longo prazo. Similar situação é encontrada em dificuldades de aprendizagem. Alguém com um transtorno de aprendizagem, como dislexia, poderá sim aprender a leitura e escrita de forma satisfatória. Apenas precisará descobrir os caminhos, as estratégias necessárias. O mesmo ocorre com TDAH. Por isto importa pouco se TDAH tem cura ou não.

É necessário criar estratégias para melhorar o funcionamento cerebral. A boa notícia tratar-se de uma possibilidade real, acessível à qualquer pessoa. Seja por técnicas de auto-monitoramento e auto-controle desenvolvidas através de terapia, seja por ginástica cerebral. Enfim, implementando novos hábitos pessoais, familiares, mudando o estilo de vida.

Pois, mesmo para hábitos arraigados e difíceis de mudar, as terapias comportamentais são muito eficazes. Afinal, ninguém gosta de viver em meio à bagunça e desorganização, sempre atrasado, assombrado por adiamentos crônicos e promessas que nunca se realizam.

Sobretudo importante reforçar a importância da medicação, independente de seus efeitos serem limitados no curto prazo. Porque isto jamais significa que ela não deva ser usada como parte de um plano de tratamento. Claro, desde que corretamente indicada e prescrita por um médico.

Buscar objetivos de longo prazo, sem esquecer o alívio de curto prazo

A saber, o ponto principal é encarar o tratamento do TDAH sob uma ótica dupla. Por um lado, buscar o máximo de alívio de curto dos sintomas. Por outro, atentar para a necessidade de longo prazo de desenvolver novas competências, habilidades e comportamentos. Ou seja, focar no presente e também no futuro.

Para melhores resultados, os tratamentos devem levar em conta os desafios e necessidades específicas do caso, aliando formas de educação, treinamentos e terapias, eventualmente em conjunto com medicação. Considerar apenas o fator orgânico – cerebral – é uma das maiores causas de frustração com o tratamento, com risco de levar até mesmo à desistência.

Finalizando, espero que esta concepção de tratamentos integrativos e multi-modalidades possa aliviar a angústia de se pensar se TDAH tem cura ou não. Realmente, pode não ter. Porém não impedirá você de viver bem, ser feliz e realizado. Junto com seu TDAH.

Cacilda Amorim – Psicoterapeuta & Coach Comportamental
Diretora do IPDA – Instituto Paulista de Déficit de Atenção
Idealizadora dos Programas Minha SuperAÇÃO
Background

É POSSÍVEL SUPERAR

Distração, esquecimentos, agitação, desorganização, baixo desempenho…
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