Instituto Paulista de
Déficit de Atenção

Quando o stress passa do limite... Burnout!


Quando o stress se torna demasiado, muito intenso ou presente em todas as áreas da vida. Nosso corpo tem uma capacidade intrínseca de se ajustar às situações que interferem com seu estado de equilíbrio, a partir de mecanismos automáticos de recuperação da homeostase.

São muitos os fatores que podem causar stress. Doenças, como gripes, inflamações ou infecções; até mesmo queimaduras de sol e excesso de exercício físico são estressores físicos. Preocupações constantes, angústias, dificuldades de relacionamento, brigas; eventos mais extremos como perdas importantes - divórcio, falecimentos de pessoas queridas causam stress mental e emocional. Outros eventos situacionais, de estilo de vida, como tipo do trabalho, excesso de atividades e responsabilidades, quantidade de horas de trabalho diárias e tempo de descanso, trânsito e transporte entre casa e trabalho e alimentação inadequada, entre diversos outros, são igualmente agressivos para o equilíbrio físico e mental.


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Quando você ainda dá conta: A Fase de Resistência do Stress


Sob stress regular, independente deste ser físico, emocional, comportamental ou situacional, o corpo passa a trabalhar em situação de emergência, usando recursos físicos e psíquicos para auto-proteção, para dar conta de todas as demandas e agressões. São duas etapas importantes, a partir do momento em que o stress elevado faz parte da vida cotidiana.


A primeira reação ao stress constante é a Fase de Resistência. Nela, os recursos físicos e psíquicos são ativados de modo a enfrentar os desafios e recuperar o equilíbrio. Nesta fase, o corpo é bombardeado por substâncias que facilitam o enfrentamento. A adrenalina é a grande responsável pela capacidade de reação, de suportar o esforço e a pressão em busca dos objetivos, muitas vezes por anos a fio.



Nesta fase de resistência, um desgaste lento e insidioso vai se acumulando, especialmente nas pessoas mais batalhadoras, aquelas que encaram os problemas com coragem e sem descanso. De forma imperceptível, as resistências do corpo vão sendo exauridas, de forma inconsciente e involuntária. E o stress crônico é o maior fator de risco para a Síndrome de Burnout.


A Fase de Esgotamento / Stress Crônico - Síndrome de Burnout


O aparecimento do estado de esgotamento - do Burnout - usualmente pega a pessoa de surpresa. Imagine alguém que, ao longo da vida, sempre teve força para dar conta dos desafios, de correr atrás das coisas importantes... de repente, parece que teve um apagão.


A Síndrome de Burnout é um estado de exaustão física, mental e emocional, causada por stress crônico e muito prolongado. Seu início é marcado pela percepção que "não dá mais", de sobrecarga e incapacidade em dar conta das demandas constantes. Conforme o esgotamento avança, a produtividade diminui - a energia vai acabando, deixando um sentimento de vazio, desesperança, até mesmo de cinismo e ressentimento. Toda aquela garra e vontade que foram o combustível por tanto tempo, agora simplesmente desapareceu.



Falta de motivação, um estado crônico de cansaço que não melhora com o descanso, uma atitude geral de desinteresse por todas as coisas que anteriormente traziam ânimo, vontade, prazer, ansiedade, nervosismo e até mesmo preocupações - e que mantinham a pessoa em movimento, sempre correndo atrás. Passa pela cabeça que tanto esforço, tanta dedicação, nada valeu a pena. Qualquer pequeno problema ou contratempo parece enorme. Um dos meus pacientes dizia que, durante o momento mais pesado do Burnout, até mesmo escolher o sabor da pizza era custoso demais.


TDAH, Stress e Burnout


Tanto stress intenso e o Burnout afetam as capacidades de atenção, memória, velocidade mental, controle de impulsos e motivação, levando a confundir seus sintomas com o TDAH. Contudo, a depender da fase do stress, o tipo específico de sintoma varia.

Sob stress intenso, a pessoa tende a reagir com um super-engajamento com as situações. É a fase em que se faz coisas demais, correndo o tempo todo para todos os lados, com agitação mental muito forte, forte reatividade emocional, impulsividade e dificuldade de focar em uma única coisa.

Na Fase de Resistência, a caminho do stress crônico, é típico querer fazer tudo ao mesmo tempo, devido a um forte senso de urgência; às vezes, acompanhado pela idéia que "já deveria ter conseguido isto a (x) anos, o tempo está passando, estou ficando velho(a)".



Nesta etapa, os sintomas são bem parecidos com a hiperatividade, especialmente mental - a percepção é da cabeça não parar nunca, pensando em tudo ao mesmo tempo, visualizando cenários futuros, possibilidades e ações a serem tomadas. Um dos meus pacientes, quando iniciou o tratamento, recitava constantemente a lista de todas as pendências em aberto. O prejuízo físico é mais visível, como cansaço constante, apesar de ainda haver energia para continuar lutando.


Na Fase de Esgotamento / Burnout, os sintomas e queixas mudam bastante. A impulsividade, ansiedade e agitação mental praticamente desaparecem. Qualquer ato de pensamento se torna custoso, como se "tivessem cola". A marca principal é o descompromisso, a atitude "não aguento nem ouvir falar". O comprometimento emocional é bem intenso - o Burnout é um dos maiores fatores de risco para depressão.



O cansaço é crônico e qualquer esforço é demasiado, sem que o descanso traga alívio. Devido a este elevado grau de exaustão, todos os processos cognitivos superiores ficam prejudicados, em especial as Funções Executivas. Justamente por isto há a percepção, tão típica daqueles que sofrem do esgotamento / Burnout, de falhas de memória, cansaço mental imenso ao tentar se concentrar e lentidão do pensamento.


Certamente, existe também o cenário no qual um portador de TDAH entre em estado de esgotamento, justamente por todo o stress que a vivência do transtorno acaba por ocasionar. Neste caso, o mais adequado é entender as queixas como decorrente de uma comorbidade.



Como sobreviver ao Stress Crônico / Burnout


É essencial levar o esgotamento a sério. Qualquer tentativa de fazer mais esforço, de vencer na base da força, apenas tornará a situação ainda mais crítica. Algumas vezes não é possível atuar na prevenção do Burnout - procura-se ajuda apenas quando o quadro já está bem avançado.

Justamente por isto é necessário bastante atenção por parte dos profissionais de ajuda. Os pacientes tem tendência a recusar ajuda, a pressionar saídas mágicas para voltar à situação anterior - da fase de resistência, em que tinham energia suficiente. Até conseguem entender, conscientemente, a origem do esgotamento - sem contudo a aceitação que será necessário mudar o estilo de vida.


No que diz respeito ao TDAH, é essencial manter uma postura de suspeição diante de um histórico sugestivo de Burnout. Tratamentos com psicoestimulantes são solicitados explicitamente por muitos pacientes, especialmente aqueles com elevado grau de exigência e auto-crítica. Este uso pode, no curto prazo, trazer alguma melhora em termos de energia geral, contudo haverá um preço muito alto a ser pago, na medida em que as poucas reservas ainda existentes serão rapidamente depletadas.



É altamente indicado "diminuir a velocidade", que a pessoa consiga permitir a si mesma um período de desligamento das pressões (às vezes, é possível fazer isto sem deixar o trabalho). É preciso abrir tempo para descansar, relaxar, repensar a vida e dar espaço para que o corpo se cure. A própria ocorrência do Burnout é um indicador inquestionável que alguma coisa já não ia bem, que não dá mais para continuar daquele jeito.


Buscar ajuda pode fazer toda a diferença. Primeiro, recuperar os contatos interpessoais, o vínculo e suporte pelas pessoas queridas. É muito triste reconhecer que diversos daqueles que se encontram em esgotamento perderam todo vínculo significativo ao longo dos anos, devido ao foco excessivo no que "tinha de ser feito", como se os relacionamentos fossem algo totalmente dispensável e pouco útil.

Segundo, aceitar cuidados profissionais. Fazer terapia pode abrir o espaço necessário para aprender a cuidar de si, também para repensar os sonhos, esperanças, objetivos e também questionar os meios para alcançá-los.


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