Instituto Paulista de
Déficit de Atenção

Quando nada é suficientemente bom


Parece incrível, mas é verdade. Muitas pessoas que sofrem com TDAH são também perfeccionistas. Esta afirmação pode causar estranhamento - afinal, quando se fala sobre as características do TDAH, é bem comum enfatizar a bagunça, desorganização, adiamentos, erros, etc... muitos traços que costumeiramente são associados à preguiça, falta de vontade e até mesmo irresponsabilidade. Por outro lado, há uma idéia generalizada que pessoas perfeccionistas seriam mais detalhistas, responsáveis e dedicadas.

É certo que buscar a excelência, cuidar dos detalhes e evitar erros são atitudes muito positivas. Contudo, o perfeccionista vai além. Quem é perfeccionista cultiva a idéia da perfeição. Mas também, simultaneamente, mantém uma atitude diante da vida na qual cometer erros é algo intrinsecamente ruim e que precisa ser evitado a qualquer preço.


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Perfeccionismo e não aceitação dos erros


Erros são essenciais a todas as situações de aprendizagem. Servem como feedback, como parâmetro para avaliar se estamos no caminho certo ou se é necessário uma correção de rota. Por não lidar bem com erros, o perfeccionismo prejudica tanto a aprendizagem quanto a execução. Coisas novas podem ser deixadas de lado, apenas porque representam arriscar, sair da zona de conforto.


A busca pelo resultado perfeito pode transformar a execução de certas tarefas numa tortura - quando alguém passa muitas horas preciosas cuidando de detalhes que agregam muito pouco ao resultado final. É bem comum encontrar pessoas perfeccionistas que, a despeito de suas grandes capacidades, não conseguem o reconhecimento e respeito profissional devido. Igualmente, que acabam entregando um trabalho pela metade, até mesmo depois do prazo, simplesmente porque perderam tempo demais com detalhes. Ao final, os prejuízos com os atrasos ou com a distribuição desigual do esforço acaba não compensando.



Quando o possível não é satisfatório


Pessoas que tem traços perfeccionistas usualmente recusam alternativas mais realistas, diante do ideal de perfeição. Primeiro, já partem do princípio que o possível não é satisfatório. Portanto, "devem" ser mais ou melhor. Com isto, o stress e ansiedade aumentam exponencialmente, bem como o medo de fracassar e o risco de depressão. O resultado é sentir-se paralisado ou entrar em um ciclo perverso de iniciar / abandonar tudo aquilo que se começa.


O perfeccionismo é um traço comum em pessoas que sofrem com ansiedade e baixa estima. Justamente por não atingirem seus ideais de perfeição - na maior parte das vezes, irrealista - acabam se frustrando, deixando de acreditar em suas capacidades reais. Não apenas de acreditar, mas também de não realizar, de não entregar o que poderia reverter numa experiência de satisfação e feedback positivo.



Perfeccionismo e TDAH


Há dois pontos de convergência entre TDAH e perfeccionismo. O primeiro é a busca da compensação pelos erros cometidos. Quem sofre com TDAH já carrega uma estória de vida repleta de críticas, frustrações e julgamentos negativos - primeiro por terceiros, depois com o tempo sendo introjetados sob a forma de auto-crítica extrema.



Neste cenário, a avaliação realista do desempenho, dos erros e acertos fica bem comprometida. Às vezes, até mesmo a observação do ato, da execução de uma atividade está comprometida pela distração. A pessoa se sente confusa, sem saber se está fazendo certo, se esta cometendo erros, se são erros "bobos" ou falhas graves. A insegurança aumenta e se instala uma desconfiança generalizada quanto ao seu próprio julgamento.

Há então o risco de desenvolver um comportamento compensatório e compulsivo de checagem, com o intuito de corrigir antecipadamente erros que se presume (com toda certeza) terem sido cometidos. Este é um dos lados do "Perfeccionismo TDAH": um esforço desenfreado de revisão daquilo que se faz, acompanhado por uma angústia imensa de deixar passar alguma coisa.

A outra convergência entre perfeccionismo e TDAH é o hiperfoco. Como já foi explicitado, TDAH não é um transtorno que impeça a concentração. É, antes disto, um déficit no controle voluntário sobre o foco da atenção. O Hiperfoco é um estado de foco extremamente intenso, sobre um aspecto muito pequeno do contexto global.


Quando se avalia em conjunto as interações entre perfeccionismo, ansiedade, TDAH e hiperfoco, desvela-se claramente um cenário no qual a dificuldade incipiente de ter controle sobre o foco leva a erros, que por sua vez são criticados e eventualmente punidos. Diante deste histórico, situações futuras que sinalizem erros potenciais geram ansiedade.

Daí a interação com o TDAH. A ansiedade não apenas aumenta o risco de erros, por roubar o pouco que resta da capacidade de foco mas também, ao mesmo tempo, aumenta as tentativas de controle e induz o hiperfoco - dificulta a alternância da atenção, a flexibilidade do pensamento e a visão de conjunto.


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